O blog Educação, política e o avesso traz uma série de textos, em tons biográficos, sobre as trajetórias pessoais dos educadores. A ideia inicial surgiu a partir de cursos de formação de leitores, desenvolvidos no estado do Paraná, em comemoração aos 50 anos da publicação da obra "Pedagogia do Oprimido", de Paulo Freire. A pergunta sugere uma reflexão sobre as carreiras de profissionais que, embora distintos, parecem guardar experiências em comum. Por isso, convidamos você a prestigiar e a se emocionar com as histórias reais de quem dedica o seu tempo de vida a educação no Brasil. O texto que inicia essa série é de autoria do professor de filosofia, Dirceu Ferreira.
Boas leituras!
Pretendo com essa narrativa
biográfica, relatar um pouco de minha história na vida escolar e de como
tornei-me professor no magistério. É claro que minha história se desenvolve de
modo a ser marcada por altos e baixos, e muitos percalços.
Sou oriundo de uma família de
seis irmãos, sendo que, na ordem de faixa etária decrescente, estou na terceira
posição. Sou nascido em uma pequena cidade do interior do Paraná, chamada Nova
Fátima; é importante salientar, não nasci no meio urbano.
Assim sendo, originário de uma
família muito pobre que vivia abaixo da linha da pobreza, a escola, mas
sobretudo o acesso ao conhecimento, se tornava algo muito distante. Na visão de
meus pais, por exemplo, estudar era “coisa de rico”. Eles eram, por assim
dizer, totalmente analfabetos. Não havia sequer a preocupação em aprender a
escrever o nome. Tanto é que minha querida mãezinha nunca soube o que seria
escrever o próprio nome.
Nós morávamos na zona rural e
meus pais trabalhavam como meeiros no sistema de colônia. Certa vez, apareceu
um sujeito, cujo apelido era “periquito”. Esse tal chegou em nossa casa e disse
para minha mãe – porque meus pais e irmãos estavam trabalhando na lavoura de
café – que estava abrindo uma escola para alfabetizar as crianças e
adolescentes analfabetos. Eu me lembro perfeitamente quando ele perguntou a minha
mãe se seriam três filhos a serem matriculados na escola dele, e ela respondeu
com muita seriedade que seriam apenas dois. Lógico que era eu é que ficaria de
fora.
O interessante é que ele insistiu,
porque iria cobrar uma taxa de cada aluno, porque eu era o mais novo, não
poderia também? Minha mãe, mais uma vez, com muita determinação, disse que eu
estava apenas com nove anos de idade. Portanto, ainda era muito novo para ir à
escola. O fato é que essa história de alfabetização do tal “periquito” não deu
em nada, porque ele estava agindo de má fé, só com interesse de explorar as
famílias.
No ano seguinte, em 1974, nós nos
mudamos de lugar, mas dentro do mesmo município. Foi quando eu e meus irmãos fomos
para a escola pela primeira vez. Eu já estava com dez anos de idade. Acontece
que meu irmão mais velho teve que deixar a escola para trabalhar e ficamos eu e
o outro irmão. Infelizmente, o meu irmão que havia permanecido na segunda
semana levou uma surra da professora. Aí, minha mãe tirou ele e eu da escola, porque
talvez não se sentisse segura. Mas quando isso aconteceu, eu fiquei muito
afetado, pois eu gostava muito da escola e dos meus amigos.
Assim, como me identificava com o
ambiente escolar, muitas vezes eu dava um jeito de escapar de minha mãe dizendo
a ela que iria pescar no ribeirão que havia perto do rancho de sapê em que
morávamos, e ia no grupo escolar. Desse modo, eu ficava esperando a hora do
recreio para eu poder brincar com as demais crianças. Quando o recreio
terminava eu voltava, aí parava no ribeirão e apanhava minha varinha de pesca
que havia deixado camuflada no mato para pescar uns lambaris, com o intuito de
comprovar para minha mãe que estava pescando de fato.
No segundo semestre do mesmo ano,
mudamos novamente de lugar, desta vez para outro município vizinho. Aí, fui ser
matriculado em uma outra escola, permanecendo por um tempo.
O interessante no meio dessa história toda, é que ganhei um livro do meu avô paterno, chamado “Terra dos pinheirais”. Ele contava muitas histórias, inclusive do Saci Pererê. Assim, quando eu ia para a casa do meu avô, ele me ajudava a compreender as primeiras letras, até que eu pudesse ler o livro que havia ganhado.
O interessante no meio dessa história toda, é que ganhei um livro do meu avô paterno, chamado “Terra dos pinheirais”. Ele contava muitas histórias, inclusive do Saci Pererê. Assim, quando eu ia para a casa do meu avô, ele me ajudava a compreender as primeiras letras, até que eu pudesse ler o livro que havia ganhado.
Assim sendo, por inúmeras vezes
tive que abandonar a escola para ajudar no trabalho em casa. Somente quando
completei dezoito anos é que me dediquei com mais determinação para levar os
estudos a diante. Aí concluí o ensino primário estudando à noite. Quando havia
concluído fiz a matrícula no ginásio. Estudei um ano e decidi vir para
Curitiba, foi quando ingressei no seminário em 1985. Foi quando passei a
entender de fato o que seria estudar. Ali conclui o ginásio e o segundo grau e
entrei para a faculdade de filosofia em 1989. Em 1991, eu já estava lecionando
em dois colégios de Araucária, em um deles como estagiário e no outro
contratado.
Este é, portanto, um breve relato
de minha biografia e de como ingressei no magistério e me tornei professor.
Neste ano de 2019 estarei completando 29 anos de atividade no magistério
profissional. Quero dizer, ainda, que me orgulho muito dessa minha história. E
foi graças ao caminho que percorri pelo conhecimento que superei as amarras da
ignorância.
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