quarta-feira, 12 de junho de 2019

Pedro Elói Rech - Como me tornei educador



O blog Educação, política e o avesso tem o prazer de apresentar mais um texto emocionante. O texto é de autoria do professor Pedro Elói Rech e retrata, de modo profundo e emocionante, aspectos da sua biografia. Convidamos o leitor a refletir sobre quem são os educadores brasileiros. A identificar quais aspectos dessas histórias expressam momentos da vida do próprio país e, em particular, do estado do Paraná. Boa leitura!




Ortega y Gasset dizia: “Eu sou eu e minha circunstância”. No meu caso, muito mais circunstância do que eu.
Finda a Segunda Guerra Mundial, eu nascia na localidade de Harmonia, então terceiro distrito de Montenegro (RS). O meu sobrenome evidencia a ascendência alemã, já distante. Língua e costumes tinham sido preservados. Fui aprender português na escola. Harmonia devia ter no máximo umas duas mil almas, almas no pleno sentido da palavra. Toda a organização da vida comunitária girava em torno da paróquia e de seu padre vigário. No meu tempo, este padre vigário foi vigário por mais de 50 anos. Ele auscultava todas as almas.
Ele tinha um poder extraordinário. Toda a população era católica e alemã, e se confessava. Coisas da colonização. Em comunidades vizinhas havia luteranos, também todos alemães. O padre vigário tudo fazia para manter as famílias unidas, que apesar de pobres, se consideravam unidas e felizes. A aspiração máxima era ter um filho padre. Num dia desses, um padre, nascido na localidade, foi nomeado bispo. A festa foi grande. Desde este dia eu quis ser bispo.
Foi a primeira circunstância a alterar os rumos da minha vida. Em vez de reproduzir a minha circunstância eu alterei a rota, indo para o seminário em Bom Princípio, conduzido pelo padre vigário, iniciar os meus estudos para abraçar a carreira religiosa. Sentia as dores de viver sem o convívio familiar. Sem ter muita consciência dos fatos e das circunstâncias, fiz o curso ginasial e o clássico de então, agora já na cidade de Gravataí.
Tenho deste tempo alguma memória relativa ao tema da formação. A consciência brotando. Foi o tempo do Concílio Vaticano II, de João XXIII e de Paulo VI. Tempo das encíclicas Gaudium et spes (1965) e Populorum Progressio. Elas tinham forte cunho social e humanístico, conclamando a Igreja para uma prática de vida plena, libertadora e emancipadora. O desenvolvimento era o nome para a paz. Desenvolvimento não era apenas crescimento econômico, mas também político e social. Era um convite para uma inserção maior na vida comunitária em toda a sua dimensão, inclusive para a política.
Assim cheguei ao Seminário Maior de Viamão, onde fiz o curso de filosofia, voltado para uma filosofia religiosa. Dois professores me marcaram decisivamente. D. Antônio Cheuiche e Ernildo Stein. A eles o meu tributo de gratidão.
Em Viamão o clima já era de maior liberdade. A proximidade de Porto Alegre nos levava ao cinema e à leitura livre de jornais. O mundo se abria, e com isso, creio eu, as primeiras reflexões mais sérias. Mesmo sem nenhuma perspectiva alternativa de vida, deixei o seminário, para imensa tristeza de minha mãe e de meu pai. “Família que não tinha um filho padre, não ia para o céu”, lhes diziam os pregadores religiosos.
Mais uma vez a circunstância falou alto. Segui o meu rumo. Fiquei um ano em Porto Alegre para terminar o curso de filosofia. Faltavam as matérias pedagógicas. No emblemático mês de dezembro de 1968 eu me formava. O AI-5 recém havia entrado em vigor. O que me restava fazer? Fazer valer o meu diploma e os registros em História, Filosofia e Psicologia. A filosofia já estava banida dos currículos. Assim, em 1969 eu aportava em Umuarama para iniciar a minha carreira de professor, primeiro como professor suplementarista, efetivo a partir de 1972 e, ainda, em 1972 ingressar no magistério do ensino superior, com a abertura das faculdades na cidade. Lembro a minha filiação ao sindicato. Por ocasião da realização do concurso, no Colégio Estadual do Paraná, havia uma banquinha. Não tive dúvidas. A minha filiação foi junto a APLP.
Inexperiente em tudo, o que fazer em sala de aula. Eu usava os livros didáticos e preparava as minhas aulas, lendo sobre os temas. Um livro em especial me deixou marcas profundas. Este eu havia trazido de Porto Alegre. Cristianismo, sociedade e revolução, do padre Eugênio Charbonneau. Os tempos da ditadura eram tempos difíceis. O arrocho salarial era grande e doía. Num determinado tempo houve até complementação salarial, para atingir um salário mínimo. A exploração salarial ajudou na formação de uma visão das injustiças. Cometi muitos erros de posicionamento. Já no início dos anos 1980, os livros de Paulo Freire faziam parte de minhas aulas. Pedagogia do Oprimido e Educação como prática da liberdade.
O final dos anos 1970, mas especialmente os anos da década de 1980, foram anos magníficos. No horizonte se vislumbrava a redemocratização. Anistia, campanha das diretas e a Assembleia Nacional Constituinte eram os grandes movimentos. Junto com a questão eleitoral vieram à tona as novas demandas da democracia, que acabaram inscritas na Constituição de 1988. Foi um tempo de grande crescimento intelectual. Eu estava em todos esses movimentos.
Fiz os primeiros cursos de especialização, entrei em cheio na luta sindical e política. Fiz cursos no DIEESE e no Treze de Maio. Fiz minha filiação junto ao PT. Fui seu presidente e, inclusive, sabendo que não iria ganhar, ajudei a somar na legenda para elegermos deputados federais. Elegemos três. Isso foi em 1990. Fui presidente do Núcleo Sindical de Umuarama por três vezes. Participamos das greves, integrando, inclusive, comissões de negociação. A maior façanha foi levar Paulo Freire para Umuarama. Organizamos também cursos do Treze de Maio em Umuarama. Isso me credenciou para participar das eleições estaduais da APP-Sindicato, em nível estadual. Vencemos as eleições de 1993.
Na direção do sindicato procuramos ao máximo organizar um trabalho pela base e com inúmeros cursos de formação. Trazíamos para Curitiba grandes nomes da educação brasileira, gravávamos as falas, e estas se multiplicavam por meio de vídeos, pelo Brasil a fora. Os debates educacionais eram intensos. Eram os tempos da elaboração da LDB. Participávamos intensamente do Fórum em Defesa da Escola Pública. Organizávamos cadernos para a discussão pedagógica. Eram tempos de neoliberalismo. Eram tempos de FHC e de Jaime Lerner.
Das atividades sindicais, o que mais me deixou marcas foram dois movimentos maravilhosos. O primeiro foi a da filiação do sindicato à CUT. Houve um enorme crescimento na formação da consciência de classe, pois na direção anterior se apregoava que os professores não eram trabalhadores. Trabalhador era quem usava macacão de trabalho e que tinha graxa nas mãos. O segundo foi o da unificação dos sindicatos. O de professores e o de funcionários da escola. Avançamos enormemente na compreensão de todos dos males trazidos pela divisão social do trabalho e a consequente hierarquização. Foi um trabalho de difícil superação. E, por óbvio, não esquecíamos da questão salarial.
Mas o ambiente interno no sindicato não era bom. Começou a luta em torno das correntes políticas para se incrustarem no poder. Muitas decisões passaram a ser tomadas pela “elite condutora“ do processo. Isso trouxe consequências pesadas e que hoje se manifestam com toda a sua força. Além disso, eu precisava de dinheiro. Paguei o preço da coerência de manter os meus filhos na escola pública e o resultado foi fatal. Filhos no ensino superior privado. Isso coincidiu com a minha aposentadoria no ano de 1997. Deixei a direção do sindicato. Também sentia a falta de maior formação teórica.
Já na qualidade de aposentado, fui para a PUC de São Paulo, fazer o mestrado no núcleo de Filosofia da Educação, um curso de nota sete, nível internacional. Em termos específicos de formação foram os meus dois melhores anos. De volta a Curitiba, ingressei como professor na Universidade Positivo, nos cursos de Pedagogia, Publicidade e Propaganda e Jornalismo, nas disciplinas ligadas à filosofia e à teoria política. Em julho de 2012, depois de treze anos de trabalho na universidade e de 43 no total, presenteei-me, pela aposentadoria, com uma viagem de trinta dias pela Itália e pela Grécia, buscando conhecer os berços da nossa civilização. Foi extasiante. Atenas, Roma, Florença, Gênova, Veneza.
A partir de 2012 abracei a última carreira de minha vida. A de administrador. Administrador de tempo livre. Prometi aos meus alunos que continuaria a fazer os trabalhos de agitação cultural. Criei o blog do pedroeloi.com.br – que se ocupa de cultura, política e viagens. O blog tem caráter formativo e está às vésperas de atingir um milhão de acessos. São muitas consultas para trabalhos escolares. Também me tornei, de novo, mais participante nas atividades sindicais, militando no grupo denominado APP-Independente, onde continuamos trabalhando em cursos e palestras de formação, participando inclusive do ciclo de leituras de Paulo Freire, comemorativos aos cinquenta anos da Pedagogia do Oprimido, organizado pela APP-Independente. E para encerrar, apresento a minha mais firme convicção em torno da defesa da escola pública. Com todos os defeitos, ela é o espaço maior para remover a tão pesada lei da gravidade social e, muitas vezes, o único espaço de alento para muitos de nossos jovens, vítimas das perversas políticas antissociais e nada republicanas de nossos governantes. A escola pública é o espaço de percepção das contradições sociais, pelo convívio das diferenças, e da tomada de consciência da necessidade de humanização em meio a um perverso sistema de relações sociais.


Pedro Elói Rech
Administrador de tempo livre e do blog do pedroeloi.com.br

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