Bom dia, boa tarde, boa noite! Estamos nessa jornada esperançosa de dar voz e publicidade às histórias de vida dos educadores. O blog Educação, política e o avesso, nesse sentido, traz mais um texto emocionante. O texto a seguir é de autoria do professor Romeu Miranda. Bom apetite!
Andava eu perdido em alguma turma do curso científico do Colégio Estadual do Paraná, aguardando o início da aula de Língua Portuguesa quando adentra na sala, toda vestida de preto, a professora; sobe no estrado, abre os braços em asa, descortinando uma suntuosa capa preta de forro grená, e começa a declamar;
Andava eu perdido em alguma turma do curso científico do Colégio Estadual do Paraná, aguardando o início da aula de Língua Portuguesa quando adentra na sala, toda vestida de preto, a professora; sobe no estrado, abre os braços em asa, descortinando uma suntuosa capa preta de forro grená, e começa a declamar;
“Senhor Deus dos desgraçados
Dizei- me vós, senhor Deus
Se eu deliro ou se é verdade
Tanto horror perante os céus
Ó mar por que não apagas
Com a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão,
Astros, noites, tempestades,
Rolai das imensidades,
Varrei os mares tufão...”
E prosseguiu, desfiando os horrores do tráfico negreiro. Quando ela
terminou, houve um silêncio de se ouvir as asas de uma borboleta. Retomada
a aula, nossas almas repostas nas carteiras, ela nos apresentou Castro Alves, o
poeta dos escravos.
Naquele dia tomei uma decisão que mudou por completo o rumo de minha
vida. Abandonei a ideia de fazer Odontologia. Queria ser aquilo, alguém que
manobrasse as palavras. Queria ser um professor de Literatura.
Terminado o Científico, prestei vestibular para Letras, na PUC- Paraná.
Mas o que me tornou de direito e de fato um professor pleno, foram as aulas de
dois professores, opostos no método mas unitários em objetivos: os mestres Paulo
Freire e Dermeval Saviani, no programa de Mestrado em Filosofia da Educação da
PUC- São Paulo.
Ontem, um pouco antes de escrever este texto, fui a um mercado próximo a
minha casa. Um jovem senhor aproximou- se, cheio de visível emoção:
- Professor Romeu! O senhor foi
meu professor no Estadual. O senhor mudou a minha vida! Cobrava rigor no estudo
mas teve um coração gigante pra me ouvir num momento de extrema dificuldade e
me devolver a esperança! Muito, muito obrigado.
E dirigindo- se ao seu filho, adolescente:
- Filho, este é o professor de quem o pai sempre fala.
Depois de tantos percalços, tantos desalentos, tantos dissabores na
carreira, naquele instante, agradeci à professora da Educação Básica que me
motivou, aos dois mestres da PUC que me " esmerilharam" e formaram o
professor que sou, que fui e que serei!
Nenhum comentário:
Postar um comentário