segunda-feira, 17 de junho de 2019

Romeu Miranda - Como me tornei educador



Bom dia, boa tarde, boa noite! Estamos nessa jornada esperançosa de dar voz e publicidade às histórias de vida dos educadores. O blog Educação, política e o avesso, nesse sentido, traz mais um texto emocionante. O texto a seguir é de autoria do professor Romeu Miranda. Bom apetite!



Andava eu perdido em alguma turma do curso científico do Colégio Estadual do Paraná, aguardando o início da aula de Língua Portuguesa quando adentra na sala, toda vestida de preto, a professora; sobe no estrado, abre os braços em asa, descortinando uma suntuosa capa preta de forro grená, e começa a declamar;

 “Senhor Deus dos desgraçados
 Dizei- me vós, senhor Deus
 Se eu deliro ou se é verdade
 Tanto horror perante os céus
 Ó mar por que não apagas
 Com a esponja de tuas vagas
 Do teu manto este borrão,
 Astros, noites, tempestades,
 Rolai das imensidades,
 Varrei os mares tufão...”

E prosseguiu, desfiando os horrores do tráfico negreiro. Quando ela terminou, houve um silêncio de se ouvir as asas de uma borboleta. Retomada a aula, nossas almas repostas nas carteiras, ela nos apresentou Castro Alves, o poeta dos escravos.

Naquele dia tomei uma decisão que mudou por completo o rumo de minha vida. Abandonei a ideia de fazer Odontologia. Queria ser aquilo, alguém que manobrasse as palavras. Queria ser um professor de Literatura.

Terminado o Científico, prestei vestibular para Letras, na PUC- Paraná. Mas o que me tornou de direito e de fato um professor pleno, foram as aulas de dois professores, opostos no método mas unitários em objetivos: os mestres Paulo Freire e Dermeval Saviani, no programa de Mestrado em Filosofia da Educação da PUC- São Paulo.

Ontem, um pouco antes de escrever este texto, fui a um mercado próximo a minha casa. Um jovem senhor aproximou- se, cheio de visível emoção:

 - Professor Romeu! O senhor foi meu professor no Estadual. O senhor mudou a minha vida! Cobrava rigor no estudo mas teve um coração gigante pra me ouvir num momento de extrema dificuldade e me devolver a esperança! Muito, muito obrigado. 

E dirigindo- se ao seu filho, adolescente: 

- Filho, este é o professor de quem o pai sempre fala.
Depois de tantos percalços, tantos desalentos, tantos dissabores na carreira, naquele instante, agradeci à professora da Educação Básica que me motivou, aos dois mestres da PUC que me " esmerilharam" e formaram o professor que sou, que fui e que serei!


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