Bom dia, boa tarde, boa noite!Quer saber mais sobre educação no Brasil? Venha conhecer um pouco mais das histórias de vida dos educadores brasileiros.
Música nos falantes e cá estamos nós, sábado a noite, alimentando a esperança e a fé na vida e no futuro. Dando sequência a nossa iniciativa de dar voz e publicidade às histórias de vida dos educadores, o blog Educação, política e o avesso traz mais uma biografia marcante. O texto a seguir e de autoria da professora Islandia Bezerra e está recheado de emoção. Boa leitura!
Como me tornei educadora
Islandia Bezerra
Esta pergunta remete a outras questões… Por
exemplo, quando passei a valorizar a educação na minha vida? Ou mesmo, Quais as
condições que tive para me tornar uma educadora? Certamente, eu teria mais
questões, mas me limitarei a responder àquela a qual fui convidada.
Como me tornei educadora? Antes de responder,
cito o eterno mestre Paulo Freire ... “Mas, histórico como nós, o nosso
conhecimento do mundo tem historicidade. Ao ser produzido, o conhecimento novo
supera outro que antes foi novo e se fez velho e se “dispõe” a ser ultrapassado
por outro amanhã. (FREIRE, 1996, p. 14). A partir destas palavras, farei um
cuchicho da minha historicidade e de como “me tornei educadora” em um contexto
de poucas oportunidades, mas como muita garra.
Nasci em Mossoró/RN. Cidade reconhecida pelo
seu potencial petrolífero (em terra), pela fruticultura irrigada, e pela
exportação de sal. Sim, literalmente nós
é que temos o “sal da terra” que vem para o centro sul-sudeste do país. A
cidade também é reconhecida pela hegemonia dos Rosados no poder local (família “tradicional” que
literalmente detém o poder). Nunca fui proprietária de terra, portanto jamais
corri o feliz “risco” de ter descoberta em minha propriedade o chamado “ouro
negro” e receber parcelas generosas de royalties
da Petrobras. E, por não dispor de terras nem de recursos, também não tive como
entrar no ramo do “agronegócio” para exportar melão, manga, goiaba entre tantas
outras, do pólo fruticultor Assu-Mossoró. Nem tão pouco tenho algum parentesco
com os Rosados que “favorecesse” meu processo de aprendizagem em escolas
consagradas no município.
Aos 6 anos tive minha pequena família – eu,
minha mãe (Ceição) e meu pai (Raimundo) - separados pelo que nomeamos
atualmente “incompatibilidade de gênios”. Com a separação dos meus pais, assumi
um papel até então nunca imaginado. Assumi a responsabilidade de administrar a
casa, enquanto minha mãe dava o seu “jeitinho” de nos sustentar.
Desde criança, minha mãe e minha eterna
educadora, também acrescento outros adjetivos como guerreira e vencedora, Ser a
quem admiro e acima de tudo, amo (hoje é professora aposentada do ensino
fundamental), me ensinou que somente a educação faria de mim “o que eu quisesse
ser”. A sua força e disposição para trabalhar e estudar – enquanto eu ficava em
casa – sempre me serviram do melhor exemplo, a buscar por meio da
educação/formação o melhor caminho a ser trilhado.
Na minha meninice, e como toda e qualquer
criança, eu queria brincar e “escruvitiar” (como dizia ela). Mas, ela – como
uma boa educadora – tinha muita paciência e doçura para seguir com o seu projeto
de maternagem. Entrei na escola já sabendo ler e escrever. Mérito não apenas
meu, mas principalmente da minha mãe, pois em seus horários escassos e que, na
maioria das vezes, tinha o seu semblante de cansada, ainda encontrava forças e
saciava minha sede de aprender.
Lembro que quando saíamos pelas ruas do centro
da cidade, minha mãe ficava me repuxando, pois eu, literalmente, parava para
ler os letreiros que encontrava pela frente. Até aí, nada demais. Afinal eu
acabava de descobrir o “mundo das letras, palavras, frases…”, normal se
encantar.
Segui minha trajetória em escola pública.
Exceto pelo curto período em que cursei as primeiras séries em uma escola
particular, já que minha mãe era “auxiliar pedagógica” e, por isso, lhe
concederam uma bolsa de estudos para que eu pudesse iniciar meus estudos.
Ao término do ensino fundamental era chegada a
hora de renovar as forças e buscar pelo melhor ensino público da cidade de
Mossoró: a Escola Estadual Professor Abel Freire Coelho (mais conhecida por
Abel Coelho). Nesta escola, durante os três anos que compunham o segundo grau –
hoje ensino médio – tivemos enquanto estudantes muitas decepções. A qualidade
do ensino deixava muito a desejar, se era assim emuma das melhores escolas da
cidade, imagine nas outras? Disciplinas sem professores e professoras ou
disciplinas ministradas por estagiários e estagiárias sem a supervisão docente
eram nosso maior problema. Posso afirmar que durante o ensino médio não tive
aula de Física e de Química. Mas, infelizmente, esta não era uma exclusividade
nossa, muitos eram os problemas que não nos diferenciava das demais escolas
públicas do estado e, por que não dizer, do país.
Mas, mesmo com toda estas adversidades, seguia.
E minha mãe, surpreendentemente, me esimulava a seguir mais. A educação, para
minha mãe, era algo imensurável. Ela sempre me dizia: “Filha, a educação, o seu
direito de estudar, as condições para você estudar, é tudo o que eu posso lhe
dar”. Eu só pude mesmo constatar esta importância quando, já no 3o ano do
ensino médio, ela (minha mãe) me perguntou para qual curso eu pretendia fazer o
vestibular. E eu lhe respondi de forma muito objetiva: “Vestibular? Eu não vou
fazer vestibular, eu quero trabalhar”. No auge da minha adolescência,
conquistar um trabalho e “ganhar” meu próprio salário era (e ainda é para as juventudes de hoje) o
mais alto dos topos de projeção. Porém, a expressão que minha mãe fez – de
decepção e de tristeza – me adentrou a alma. Ali, naquele instante, eu me dei
conta de todo o “investimento” dela. De todas as vezes que ela me “proibiu” de
ir com ela “ajudar” nas limpezas/faxinas que ela fazia para termos algum
“troquinho”, ao invés disso me orientava a estudar. Talvez, neste exato momento,
eu tenha mesmo compreendido o que ela queria dizer. Decidi então fazer o
vestibular.
Na época, em Mossoró/RN, não tínhamos muitas
opções de cursos na UERN (Universidade Estadual do Rio Grande do Norte). De
fato, tínhamos algumas e, obviamente, aquelas consideradas “inatingíveis”, sendo
Enfermagem e Direito. Mas nehuma desta opções me despertavam o interesse.
Decidi fazer vestibular para Letras. Mas não segui até o final do curso.
Depois de três anos cursando Letras, decidi fazer
outro vestibular. Desta vez para o curso
de Nutrição. O desafio estava agora em ter que, também, administrar o sair do
interior, sair do “conforto” do lar, dos braços e sorrisos amigos – desbravar mares
desconhecidos, parececia ser assustador, mas fui.
Cheguei no curso de Nutrição com minha
“maturidade” dos 24 anos. Fato que me permitiu “viver a universidade” em suas
distintas e complexas dimensões. O curso era diurno (manhã e tarde), na época,
nos exigia demasiado… Mas isso também era um motivo para minha permanência na
universidade. Desde muito cedo no curso, nas janelas entre uma disciplina e
outra, eu participava ativamente de outras atividades. Comecei Iniciação Científica (IC) voluntária, depois
fui contemplada com uma bolsa (que na época, literalmente, pagava minhas contas
de xerox e comida). Depois prestei seleção para Monitoria, passei. Exerci com
paixão a monitoria! De toda sorte, talvez, no meu inconsciente, o “ser
educadora”, mas especificamente estar em sala de aula, conduzir processos de
aprendzagem, já corria nas minhas veias.
Mas a docência demorou um pouco para se materializar,
já que antes era necessário mais investimentos, tal como mestrado e doutorado….
Então, antes de chegar na “educação formal”, a exemplo da Universidade,
trabalhei como técnica nutricionista da Empresa de Assistência Técnica e
Extensão Rural – Emater/RN. Na EMATER/RN, posso dizer que tive a oportunidade
de exercer em essência a educação popular e libertadora.
Atuar/conhecer e aprender sobre as comunidades
rurais, desbravando estradas de chão, conhecendo culturas das mais diversas,
foram momentos únicos de descobertas. Como também fizeram parte destas
descobertas, ver o processo de homogeneização da nossa cultura alimentar. Os
maus hábitos alimentares também estavam/estão presentes no meio rural... As
famílias rurais, especialmente no Rio Grande do Norte, também são desprovidas
de comida... do básico feijão com arroz...
Paulo Freire (p. 21, 1996) cita que “Saber que
ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para sua própria
produção ou a sua construção”, posso afirmar com veemência que atuar
tecnicamente na extensão rural, me despertou o “ser educadora”… E aqui vale uma
ressalva: é preciso reconhecer a necessidade de se fazer uma crítica sobre a
forma de como a extensão é concebida, como algo assistencialista, como mero
prestador de serviços e esvaziado no que diz respeito aos processos
emancipatórios. Voltando a citar Paulo Freire, “As práticas extensionistas que
impõem sua cultura sobre a dos demais, sem a necessária problematização das
contradições sociais, não emancipa os sujeitos, ao contrário, escraviza-os,
domestica-os, na tentativa de tornar os dois “mundos” semelhantes, normatizados
e padronizados.” Esta, definitivamente, não foi a nossa prática.
A minha atuação como extensionista me
possibilitou olhar o mundo rural, suas práticas de produzir-colher-comer, e me
permitiu aprender-ensinar-aprender e (re)significar os problemas sociais,
ambientais e alimentares e, assim, mediar processos problematizadores,
reflexivos e, sim, em alguma medida transformadores.
Comecei com ele e com ele, termino: “Ensinar
exige o reconhecimento e a assunção da identidade cultural. Assumir-se como ser
social e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador, criador,
realizador de sonhos (Paulo Freire, 1996 p.17). Hoje estar em sala de aula (e
fora dela) me oportuniza olhar o outro, a outra, a natureza, o meio de forma
questionadora e, por isso, me considero uma “educadora”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário