sábado, 22 de junho de 2019

Islandia Bezerra - Como me tornei educadora









Bom dia, boa tarde, boa noite!Quer saber mais sobre educação no Brasil? Venha conhecer um pouco mais das histórias de vida dos educadores brasileiros. 

Música nos falantes e cá estamos nós, sábado a noite, alimentando a esperança e a fé na vida e no futuro. Dando sequência a nossa iniciativa de dar voz e publicidade às histórias de vida dos educadores, o blog Educação, política e o avesso traz mais uma biografia marcante. O texto a seguir e de autoria da professora Islandia Bezerra e está recheado de emoção.  Boa leitura!




Como me tornei educadora

Islandia Bezerra

Esta pergunta remete a outras questões… Por exemplo, quando passei a valorizar a educação na minha vida? Ou mesmo, Quais as condições que tive para me tornar uma educadora? Certamente, eu teria mais questões, mas me limitarei a responder àquela a qual fui convidada.
Como me tornei educadora? Antes de responder, cito o eterno mestre Paulo Freire ... “Mas, histórico como nós, o nosso conhecimento do mundo tem historicidade. Ao ser produzido, o conhecimento novo supera outro que antes foi novo e se fez velho e se “dispõe” a ser ultrapassado por outro amanhã. (FREIRE, 1996, p. 14). A partir destas palavras, farei um cuchicho da minha historicidade e de como “me tornei educadora” em um contexto de poucas oportunidades, mas como muita garra.
Nasci em Mossoró/RN. Cidade reconhecida pelo seu potencial petrolífero (em terra), pela fruticultura irrigada, e pela exportação de sal. Sim,  literalmente nós é que temos o “sal da terra” que vem para o centro sul-sudeste do país. A cidade também é reconhecida pela hegemonia dos Rosados  no poder local (família “tradicional” que literalmente detém o poder). Nunca fui proprietária de terra, portanto jamais corri o feliz “risco” de ter descoberta em minha propriedade o chamado “ouro negro” e receber parcelas generosas de royalties da Petrobras. E, por não dispor de terras nem de recursos, também não tive como entrar no ramo do “agronegócio” para exportar melão, manga, goiaba entre tantas outras, do pólo fruticultor Assu-Mossoró. Nem tão pouco tenho algum parentesco com os Rosados que “favorecesse” meu processo de aprendizagem em escolas consagradas no município.
Aos 6 anos tive minha pequena família – eu, minha mãe (Ceição) e meu pai (Raimundo) - separados pelo que nomeamos atualmente “incompatibilidade de gênios”. Com a separação dos meus pais, assumi um papel até então nunca imaginado. Assumi a responsabilidade de administrar a casa, enquanto minha mãe dava o seu “jeitinho” de nos sustentar.
Desde criança, minha mãe e minha eterna educadora, também acrescento outros adjetivos como guerreira e vencedora, Ser a quem admiro e acima de tudo, amo (hoje é professora aposentada do ensino fundamental), me ensinou que somente a educação faria de mim “o que eu quisesse ser”. A sua força e disposição para trabalhar e estudar – enquanto eu ficava em casa – sempre me serviram do melhor exemplo, a buscar por meio da educação/formação o melhor caminho a ser trilhado.
Na minha meninice, e como toda e qualquer criança, eu queria brincar e “escruvitiar” (como dizia ela). Mas, ela – como uma boa educadora – tinha muita paciência e doçura para seguir com o seu projeto de maternagem. Entrei na escola já sabendo ler e escrever. Mérito não apenas meu, mas principalmente da minha mãe, pois em seus horários escassos e que, na maioria das vezes, tinha o seu semblante de cansada, ainda encontrava forças e saciava minha sede de aprender.
Lembro que quando saíamos pelas ruas do centro da cidade, minha mãe ficava me repuxando, pois eu, literalmente, parava para ler os letreiros que encontrava pela frente. Até aí, nada demais. Afinal eu acabava de descobrir o “mundo das letras, palavras, frases…”, normal se encantar.
Segui minha trajetória em escola pública. Exceto pelo curto período em que cursei as primeiras séries em uma escola particular, já que minha mãe era “auxiliar pedagógica” e, por isso, lhe concederam uma bolsa de estudos para que eu pudesse iniciar meus estudos.
Ao término do ensino fundamental era chegada a hora de renovar as forças e buscar pelo melhor ensino público da cidade de Mossoró: a Escola Estadual Professor Abel Freire Coelho (mais conhecida por Abel Coelho). Nesta escola, durante os três anos que compunham o segundo grau – hoje ensino médio – tivemos enquanto estudantes muitas decepções. A qualidade do ensino deixava muito a desejar, se era assim emuma das melhores escolas da cidade, imagine nas outras? Disciplinas sem professores e professoras ou disciplinas ministradas por estagiários e estagiárias sem a supervisão docente eram nosso maior problema. Posso afirmar que durante o ensino médio não tive aula de Física e de Química. Mas, infelizmente, esta não era uma exclusividade nossa, muitos eram os problemas que não nos diferenciava das demais escolas públicas do estado e, por que não dizer, do país.
Mas, mesmo com toda estas adversidades, seguia. E minha mãe, surpreendentemente, me esimulava a seguir mais. A educação, para minha mãe, era algo imensurável. Ela sempre me dizia: “Filha, a educação, o seu direito de estudar, as condições para você estudar, é tudo o que eu posso lhe dar”. Eu só pude mesmo constatar esta importância quando, já no 3o ano do ensino médio, ela (minha mãe) me perguntou para qual curso eu pretendia fazer o vestibular. E eu lhe respondi de forma muito objetiva: “Vestibular? Eu não vou fazer vestibular, eu quero trabalhar”. No auge da minha adolescência, conquistar um trabalho e “ganhar” meu próprio salário  era (e ainda é para as juventudes de hoje) o mais alto dos topos de projeção. Porém, a expressão que minha mãe fez – de decepção e de tristeza – me adentrou a alma. Ali, naquele instante, eu me dei conta de todo o “investimento” dela. De todas as vezes que ela me “proibiu” de ir com ela “ajudar” nas limpezas/faxinas que ela fazia para termos algum “troquinho”, ao invés disso me orientava a estudar. Talvez, neste exato momento, eu tenha mesmo compreendido o que ela queria dizer. Decidi então fazer o vestibular.
Na época, em Mossoró/RN, não tínhamos muitas opções de cursos na UERN (Universidade Estadual do Rio Grande do Norte). De fato, tínhamos algumas e, obviamente, aquelas consideradas “inatingíveis”, sendo Enfermagem e Direito. Mas nehuma desta opções me despertavam o interesse. Decidi fazer vestibular para Letras. Mas não segui até o final do curso.
Depois de três anos cursando Letras, decidi fazer outro vestibular. Desta vez  para o curso de Nutrição. O desafio estava agora em ter que, também, administrar o sair do interior, sair do “conforto” do lar, dos braços e sorrisos amigos – desbravar mares desconhecidos, parececia ser assustador, mas fui.
Cheguei no curso de Nutrição com minha “maturidade” dos 24 anos. Fato que me permitiu “viver a universidade” em suas distintas e complexas dimensões. O curso era diurno (manhã e tarde), na época, nos exigia demasiado… Mas isso também era um motivo para minha permanência na universidade. Desde muito cedo no curso, nas janelas entre uma disciplina e outra, eu participava ativamente de outras atividades. Comecei  Iniciação Científica (IC) voluntária, depois fui contemplada com uma bolsa (que na época, literalmente, pagava minhas contas de xerox e comida). Depois prestei seleção para Monitoria, passei. Exerci com paixão a monitoria! De toda sorte, talvez, no meu inconsciente, o “ser educadora”, mas especificamente estar em sala de aula, conduzir processos de aprendzagem, já corria nas minhas veias.
Mas a docência demorou um pouco para se materializar, já que antes era necessário mais investimentos, tal como mestrado e doutorado…. Então, antes de chegar na “educação formal”, a exemplo da Universidade, trabalhei como técnica nutricionista da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural – Emater/RN. Na EMATER/RN, posso dizer que tive a oportunidade de exercer em essência a educação popular e libertadora.
Atuar/conhecer e aprender sobre as comunidades rurais, desbravando estradas de chão, conhecendo culturas das mais diversas, foram momentos únicos de descobertas. Como também fizeram parte destas descobertas, ver o processo de homogeneização da nossa cultura alimentar. Os maus hábitos alimentares também estavam/estão presentes no meio rural... As famílias rurais, especialmente no Rio Grande do Norte, também são desprovidas de comida... do básico feijão com arroz...
Paulo Freire (p. 21, 1996) cita que “Saber que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para sua própria produção ou a sua construção”, posso afirmar com veemência que atuar tecnicamente na extensão rural, me despertou o “ser educadora”… E aqui vale uma ressalva: é preciso reconhecer a necessidade de se fazer uma crítica sobre a forma de como a extensão é concebida, como algo assistencialista, como mero prestador de serviços e esvaziado no que diz respeito aos processos emancipatórios. Voltando a citar Paulo Freire, “As práticas extensionistas que impõem sua cultura sobre a dos demais, sem a necessária problematização das contradições sociais, não emancipa os sujeitos, ao contrário, escraviza-os, domestica-os, na tentativa de tornar os dois “mundos” semelhantes, normatizados e padronizados.” Esta, definitivamente, não foi a nossa prática.
A minha atuação como extensionista me possibilitou olhar o mundo rural, suas práticas de produzir-colher-comer, e me permitiu aprender-ensinar-aprender e (re)significar os problemas sociais, ambientais e alimentares e, assim, mediar processos problematizadores, reflexivos e, sim, em alguma medida transformadores.
Comecei com ele e com ele, termino: “Ensinar exige o reconhecimento e a assunção da identidade cultural. Assumir-se como ser social e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de sonhos (Paulo Freire, 1996 p.17). Hoje estar em sala de aula (e fora dela) me oportuniza olhar o outro, a outra, a natureza, o meio de forma questionadora e, por isso, me considero uma “educadora”.




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