Recentemente,
talvez mais do que em outros momentos da nossa história, estamos (uns mais,
outros menos) experimentando um clima de ódio, ataque e rancor em relação à
pesquisa acadêmica, à lógica do pensamento científico, à reflexão filosófica, à
experimentação artística, à escola e aos professores. Tudo o que representa –
ou deveria representar – a produção, a reprodução e a sistematização do
conhecimento humano historicamente acumulado, associado ao universo da educação
como um todo, mas em específico às universidades, é, de pronto, alçado
pejorativamente a uma condição de viés “ideológico”.
É
evidente que todo esse clima que experimentamos tem a ver com muitos fatores e
conexões causais. Observar, historicizar e problematizar esses fatores são
tarefas fundamentais para compreensão desse fenômeno e para construção de
estratégias de enfrentamento ao veloz avanço da barbárie.
Antes
de tudo, precisamos compreender a educação enquanto direito social, isto é,
como garantia material subjetiva mínima, sem a qual a própria experiência da
cidadania (moderna e contemporânea) está contida e comprometida. O Brasil é,
nesse sentido, um país marcado pelo analfabetismo e, em comparação com os
países ditos desenvolvidos, com uma média de poucos anos de estudo. A educação
em nosso país, desde o início de seu processo de colonização, sempre foi um bem
exclusivo das classes dominantes, sempre foi um direito negado às classes
trabalhadoras.
Em
fins do século XIX, por exemplo, o Brasil tinha praticamente 90% de sua
população na condição de analfabetos. Quase meio século depois, em meados do
século XX, ainda contávamos com algo em torno de 60% da população nessa
condição. Se considerarmos o acesso ao ensino superior, os dados demonstram que
durante quase todo o século XX o Brasil teve algo próximo de 5% da população
com ensino superior completo. Mesmo dentro desses 5%, é bem possível considerar
que, diante das condições sociais e econômicas do país no período, poucas
pessoas conseguiam se dedicar à pesquisa propriamente dita. Ainda hoje, quem
tem a oportunidade de se inserir no âmbito das atividades acadêmicas, sabe
muito bem que a garantia do acesso não é suficiente, pois muitos estudantes não
têm como se dedicar a projetos de pesquisa – que geralmente são oferecidos em
horários pouco “comerciais” – e a leitura, envolvendo-se em atividades de
levantamento, tratamento, sistematização e análise de dados, isto é, práticas
tipicamente acadêmicas muito difíceis para quem precisa conciliar trabalho e
estudos.
Ao
lado do processo de exclusão de grande parte da população das práticas
acadêmicas, outro fator importante para pensarmos sobre o ódio e os ataques
contra o conhecimento científico (e a adesão de parcela significativa da
população a eles), são as condições de trabalho, de emprego e de renda na
história do Brasil. Sendo um país com um passado escravocrata, não é difícil
imaginar a história de exploração e de penúria daqueles que produzem e vivem do
trabalho nessas terras. Sendo uma nação com uma das maiores concentrações
de renda do mundo, onde a maior parte da população vive com menos de dois
salários mínimos, trabalhando em jornadas exaustivas, acaba imperando um certo
moralismo do sacrifício quando se pensa o trabalho intelectual e o próprio
tempo livre. Dito de outra forma, o tempo livre, o tempo de reflexão, o ócio
mesmo (sentido grego), são vistos como algo moralmente condenáveis para as
classes trabalhadoras. E, hospedando o opressor, boa parte da classe
trabalhadora reproduz esse padrão moral, alimentando um sentimento de rancor
contra os poucos que têm a oportunidade de estudar, de desenvolver pesquisas e
de compreender sistemática e historicamente a complexidade social e política em
que vivemos. Esse rancor volta-se contra o próprio conhecimento científico, o
qual é negado e subjugado pelos sentidos atribuídos às experiências pelo
senso-comum, reforçando e legitimando práticas sociais de opressão e de
exclusão.
Na
condição de educadores progressistas é nossa obrigação, sem dúvidas, combater a
naturalização do conhecimento, o falseamento da verdade histórica, o
misticismo, o obscurantismo e o emprego de noções vazias como forma de
contenção de práticas autoritárias e fascistas. Entretanto, é necessário, a
cada um de nós, aprender a dialogar com as pessoas, especialmente com nossos
estudantes, sobre a natureza das práticas de produção do conhecimento
científico, sobre o caráter provisório dos experimentos e das formulações
teóricas, sobre as relações entre o cotidiano de vida vivida e o processo de produção
de conhecimento, sobre a necessidade de olhar para o mundo além das aparências,
sobre a necessidade de ser curioso, de pensar sobre nossa realidade existencial
sem medo para destruir mitos e barreiras que nos fazem sofrer. Precisamos, em
suma, pensar certo e ensinar a pensar certo, desenvolvendo um profícuo diálogo
entre saber científico e saber de experiência feito com nossos estudantes,
destituídos da arrogância acadêmica, mas com muito rigor e com muita coragem. O
ódio, os ataques e o rancor contra o conhecimento e a educação precisam dar
espaços ao amor, à defesa e ao desejo do conhecer e do saber.
Sebastião Donizete Santarosa
Acleilton
Ganzert
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