domingo, 23 de junho de 2019

Conhecimento ou barbárie: democracia e anti intelectualismo

Recentemente, talvez mais do que em outros momentos da nossa história, estamos (uns mais, outros menos) experimentando um clima de ódio, ataque e rancor em relação à pesquisa acadêmica, à lógica do pensamento científico, à reflexão filosófica, à experimentação artística, à escola e aos professores. Tudo o que representa – ou deveria representar – a produção, a reprodução e a sistematização do conhecimento humano historicamente acumulado, associado ao universo da educação como um todo, mas em específico às universidades, é, de pronto, alçado pejorativamente a uma condição de viés “ideológico”.
É evidente que todo esse clima que experimentamos tem a ver com muitos fatores e conexões causais. Observar, historicizar e problematizar esses fatores são tarefas fundamentais para compreensão desse fenômeno e para construção de estratégias de enfrentamento ao veloz avanço da barbárie.
Antes de tudo, precisamos compreender a educação enquanto direito social, isto é, como garantia material subjetiva mínima, sem a qual a própria experiência da cidadania (moderna e contemporânea) está contida e comprometida. O Brasil é, nesse sentido, um país marcado pelo analfabetismo e, em comparação com os países ditos desenvolvidos, com uma média de poucos anos de estudo. A educação em nosso país, desde o início de seu processo de colonização, sempre foi um bem exclusivo das classes dominantes, sempre foi um direito negado às classes trabalhadoras.  
Em fins do século XIX, por exemplo, o Brasil tinha praticamente 90% de sua população na condição de analfabetos. Quase meio século depois, em meados do século XX, ainda contávamos com algo em torno de 60% da população nessa condição. Se considerarmos o acesso ao ensino superior, os dados demonstram que durante quase todo o século XX o Brasil teve algo próximo de 5% da população com ensino superior completo. Mesmo dentro desses 5%, é bem possível considerar que, diante das condições sociais e econômicas do país no período, poucas pessoas conseguiam se dedicar à pesquisa propriamente dita. Ainda hoje, quem tem a oportunidade de se inserir no âmbito das atividades acadêmicas, sabe muito bem que a garantia do acesso não é suficiente, pois muitos estudantes não têm como se dedicar a projetos de pesquisa – que geralmente são oferecidos em horários pouco “comerciais” – e a leitura, envolvendo-se em atividades de levantamento, tratamento, sistematização e análise de dados, isto é, práticas tipicamente acadêmicas muito difíceis para quem precisa conciliar trabalho e estudos.
Ao lado do processo de exclusão de grande parte da população das práticas acadêmicas, outro fator importante para pensarmos sobre o ódio e os ataques contra o conhecimento científico (e a adesão de parcela significativa da população a eles), são as condições de trabalho, de emprego e de renda na história do Brasil. Sendo um país com um passado escravocrata, não é difícil imaginar a história de exploração e de penúria daqueles que produzem e vivem do trabalho nessas terras.  Sendo uma nação com uma das maiores concentrações de renda do mundo, onde a maior parte da população vive com menos de dois salários mínimos, trabalhando em jornadas exaustivas, acaba imperando um certo moralismo do sacrifício quando se pensa o trabalho intelectual e o próprio tempo livre. Dito de outra forma, o tempo livre, o tempo de reflexão, o ócio mesmo (sentido grego), são vistos como algo moralmente condenáveis para as classes trabalhadoras. E, hospedando o opressor, boa parte da classe trabalhadora reproduz esse padrão moral, alimentando um sentimento de rancor contra os poucos que têm a oportunidade de estudar, de desenvolver pesquisas e de compreender sistemática e historicamente a complexidade social e política em que vivemos. Esse rancor volta-se contra o próprio conhecimento científico, o qual é negado e subjugado pelos sentidos atribuídos às experiências pelo senso-comum, reforçando e legitimando práticas sociais de opressão e de exclusão.
Na condição de educadores progressistas é nossa obrigação, sem dúvidas, combater a naturalização do conhecimento, o falseamento da verdade histórica, o misticismo, o obscurantismo e o emprego de noções vazias como forma de contenção de práticas autoritárias e fascistas. Entretanto, é necessário, a cada um de nós, aprender a dialogar com as pessoas, especialmente com nossos estudantes, sobre a natureza das práticas de produção do conhecimento científico, sobre o caráter provisório dos experimentos e das formulações teóricas, sobre as relações entre o cotidiano de vida vivida e o processo de produção de conhecimento, sobre a necessidade de olhar para o mundo além das aparências, sobre a necessidade de ser curioso, de pensar sobre nossa realidade existencial sem medo para destruir mitos e barreiras que nos fazem sofrer. Precisamos, em suma, pensar certo e ensinar a pensar certo, desenvolvendo um profícuo diálogo entre saber científico e saber de experiência feito com nossos estudantes, destituídos da arrogância acadêmica, mas com muito rigor e com muita coragem. O ódio, os ataques e o rancor contra o conhecimento e a educação precisam dar espaços ao amor, à defesa e ao desejo do conhecer e do saber.

Sebastião Donizete Santarosa
Acleilton Ganzert

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