Bom dia, boa tarde, boa noite! Educadores do Paraná encerraram mais uma jornada de lutas, mais uma greve. Reforma da previdência ainda fresca, aprovada em primeira votação na Câmara. Moro e Dallagnol na lata do lixo da história.
O bicho é grande! Noix é ruim!.
Seguimos no nosso esforço - quase utópico - de dar voz aos educadores e luz às suas biografias. Os textos têm apresentado histórias marcantes. Histórias de quem, muitas vezes, dedicou toda uma vida às atividades no interior das instituições de ensino e de pesquisa. O texto a seguir é de autoria do professor Luis Paixão.
Boa leitura e bom apetite.
Seguimos no nosso esforço - quase utópico - de dar voz aos educadores e luz às suas biografias. Os textos têm apresentado histórias marcantes. Histórias de quem, muitas vezes, dedicou toda uma vida às atividades no interior das instituições de ensino e de pesquisa. O texto a seguir é de autoria do professor Luis Paixão.
Boa leitura e bom apetite.
Segundo os estudos marxistas, o ser humano é fruto de suas
circunstâncias. É fruto de múltiplas
determinações (econômicas, sociais, familiares, regionais, culturais,
educativas, etc.). Acredito que estas determinações foram ao longo da vida me tornando professor. Porém,
antes de adiantar esta conversa, vai uma afirmação que julgo relevante. Não me
tornei professor por falta de uma outra opção profissional. Muito pelo
contrário, dentre as condições de minha existência, professor foi a profissão
que escolhi e que me realiza como pessoa e como profissional.
Nasci em uma família muito humilde. Meus pais vieram da
região da Chapada Diamantina (BA) tentar a vida no Paraná. Em Londrina se
conheceram e casaram. Sou o primeiro dos sete filhos. E com eles, aprendi desde
muito pequeno valorizar a educação. Morávamos no sitio. Meu pai, depois de mais
um dia de trabalho, saía de casa de tardezinha para a cidade, afim de se
alfabetizar no antigo Mobral. Fez até o quarto ano primário. Minha mãe nunca
frequentou uma escola, mas aprendeu a ler e a escrever observando os rótulos
das embalagens de mantimentos de cozinha. Minha mãe escreve e lê como poucos.
Até hoje, já com seus quase oitenta anos, é comum encontrá-la de óculos e com
um livro nas mãos. O esforço dos dois
pela educação foram contaminando os filhos muito cedo. Não passava pela cabeça
deles que um dos filhos ficasse sem estudar. Quando recebiam uma proposta de
emprego em alguma outra fazenda ou sítio, uma das primeiras condições que avaliavam
era se tinha uma escola na região. A caminhada que eu fazia, de quatro
quilômetros, todos os dias para ir à escola era muito pouco, diante o
sacrifício que meus pais faziam para garantir as condições para a nossa
educação; desde o parco material didático, as roupas e o lanchinho sagrado de
cada dia. Em casa fomos educados para respeitar as outras pessoas, e especialmente
nossos professores e professoras. Estes eram vistos em casa quase como uma
entidade. Eram tratados como uma verdadeira autoridade na região. Na época
havia até alguns exageros por parte das professoras, mas os pais entendiam que
estas estavam fazendo o melhor para a educação dos seus filhos. Ainda me lembro
de quando em alguma festa da igreja ou da cidade encontrávamos uma das minhas
professoras primárias. Apreensivo
observava a forma carinhosa como se tratavam, e falavam do meu aproveitamento na
escola. Até ficava feliz ao escutar os elogios.
Putz! Alonguei um
pouco esta história. Mas trouxe este pequeno extrato de vida para mostrar que a
educação sempre foi uma coisa forte na história de vida da minha família. Outra
marca importante, a religião. A fé do povo simples fazia parte da minha rotina
de menino. As missas, os terços, os velórios, o dia de Nossa Senhora Aparecida,
a Folia de Reis, e até visitas em benzedeiras. E as festas juninas? Até hoje,
no dia 24 de junho, minha família comemora a festa de São João. No sítio onde
meu falecido avô morava, todos os anos tinha fogueira, mastro, terço e festa.
Algumas lembranças já se foram, mas o biscoito de polvilho, o chocolate quente
e o quentão de pinga (só molhávamos o bico) estão em mim até hoje. Eram sacos
de biscoitos feitos primeiro pela minha avó, depois pelas minhas tias, no fogão
a lenha para servir um mundaréu de gente.
Na casa em que morávamos e na casa do meu avô era muito comum
receber a visita de padres e irmãs. Sempre eram muito bem recebidos. Todo este
clima de religiosidade fez com que aos 11 anos eu ingressasse no seminário para
estudar para padre. Sim, não sei por que cargas d’água, desde os primeiros anos
de consciência de vida eu afirmava que queria ser padre. Lógico que isso trazia
um certo deleite para a família. Foram seis anos no seminário, da sexta-série
até o término do antigo segundo grau. Tempo de muita disciplina nos estudos e
na vida. Manhã, aulas. Um pouco de tempo para algum tipo de trabalho, e a maior
parte da tarde, tempo exclusivo para estudos e tarefas escolares. As
professoras e os professores eram nossa ligação com a vida externa para além
dos muros do seminário. Com exceção de alguns padres que moravam no seminário,
a maioria dos professores vinham de fora. Traziam para a gente o conhecimento científico,
mas também o conhecimento de mundo. Eu os admirava muito. Especialmente quando
transgrediam as regras e apresentavam algumas críticas sublimares à própria
organização religiosa. Pô! Tinha um padre professor que levava para a sala de
aula textos de Chico Buarque. Lembro de escutar às escondidas, em um pequeno
escritório, a música “Geni e o Zepelim”, que na época era considerada um
sacrilégio.
Sempre tive um espirito de admiração pelos meus professores.
Já no primário, era visível o meu encantamento com as professoras Janete e Ana
Maria. Elas me ensinaram as primeiras letras. Lembro do carinho que estas
professoras tinham comigo. Mas esta admiração pelo ofício de ensinar chegou
mesmo em forma de um turbilhão. A temida Salim, professora de Língua Portuguesa,
me deixava paralisado quando falava dos livros de literatura brasileira. Em
alguns momentos ela se transfigurava ao falar de algum personagem. Era uma
verdadeira viagem. Era intensa, brava, mas ao mesmo tempo encantadora! Com ela,
um dos melhores presentes que um educador poderia me dar: o gosto pela leitura.
Aquele adolescente de aproximadamente 15 anos já vislumbrava em silêncio, se
não vingasse o desejo de ser padre, o desejo de ser professor.
Tive naquele período excelentes professores. Uma das
sensações mais indescritíveis que tive depois de formado, foi entrar em uma
escola em Londrina como professor, e perceber que dois ex-professores do tempo
de seminário, que tanto os admirava, eram agora meus colegas de trabalho. Boas
lembranças.
Saí do seminário após o término do segundo grau/ensino médio.
O motivo da minha saída é um outro capítulo, acho que sem relevância aqui. A convite de uns amigos vim para Curitiba cursar
Filosofia na PUC, pois tinha ainda a expectativa de voltar ao seminário. Aliás,
estava fazendo um ano de experiência fora do seminário. Mas as circunstâncias
da vida vão aprontando os caminhos da gente. Precisava trabalhar para me manter
em Curitiba. E os trabalhos disponíveis eram, em sua maioria, durante o dia
todo. Precisa estudar à noite. Tranquei o curso de Filosofia, e comecei a
trabalhar em uma rede de livrarias. A literatura novamente em minhas mãos. Na
livraria conheci leitores de todos os gostos. Li, discuti, descobri
personagens, lugares e histórias que não imaginava contadas. Conheci
escritores, entre estes Abdias de Nascimento e Dalton Trevisan. Este último me
dava o privilégio de saborear um copinho de chá, quase todas as tardes, regado a
histórias cotidianas de Curitiba e da literatura.
Com o corpo e alma tomado pela literatura não tive nenhuma
dúvida. Deixei a Filosofia e me aventurei no vestibular do curso de Letras da
UFPR. Ainda hoje sinto as sensações dos meus primeiros dias de aulas no curso
de Letras. Estava tendo aulas com professores que estudava nos livros didáticos
ou especialistas naqueles autores que eu mais admirava. Deliciei-me com os
estudos de Machado de Assis, Fernando Pessoa, e para não ficar só na
literatura, me embrenhei nas teorias da linguagem, nas variantes linguísticas,
e especialmente nas metodologias de trabalho dos textos em sala de aula. Aos
poucos, meu projeto de ser professor estava próximo de concretizar. Começou o
período de estágios. Fora aulas de catequese na época do seminário, nunca tinha
dado uma aula. Ansioso cheguei a um Colégio Estadual no bairro Tarumã para
iniciar o estágio. Isto era quase final do ano 1990. O magistério estava em
greve. Puxa! O que fazer? Meu estágio se resumiu a um denso trabalho escrito
sobre o ensino do texto em sala de aula. Trabalho que me auxiliou muito na
minha trajetória docente.
Para finalizar a conversa. Quando terminei o curso de Letras,
apesar de ocupar uma posição de destaque como gerente de loja, despedi-me do
trabalho na livraria. Voltei para o interior do Paraná. Queria conviver um
pouco mais com minha família que me viu sair de casa aos onze anos.
Imediatamente comecei a dar aula como substituto de uma professora. Vieram os
concursos públicos em 1991, e depois 1993. Aprovado nos dois dei início a minha
trajetória na educação do Paraná. Esta já é uma outra história.
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