segunda-feira, 15 de julho de 2019

Luis Paixão - Como me tornei educador




Bom dia, boa tarde, boa noite! Educadores do Paraná encerraram mais uma jornada de lutas, mais uma greve. Reforma da previdência ainda fresca, aprovada em primeira votação na Câmara. Moro e Dallagnol na lata do lixo da história.

O bicho é grande! Noix é ruim!.

Seguimos no nosso esforço - quase utópico - de dar voz aos educadores e luz às suas biografias. Os textos têm apresentado histórias marcantes. Histórias de quem, muitas vezes, dedicou toda uma vida às atividades no interior das instituições de ensino e de pesquisa. O texto a seguir é de autoria do professor Luis Paixão.

Boa leitura e bom apetite.


Segundo os estudos marxistas, o ser humano é fruto de suas circunstâncias.  É fruto de múltiplas determinações (econômicas, sociais, familiares, regionais, culturais, educativas, etc.). Acredito que estas determinações  foram ao longo da vida me tornando professor. Porém, antes de adiantar esta conversa, vai uma afirmação que julgo relevante. Não me tornei professor por falta de uma outra opção profissional. Muito pelo contrário, dentre as condições de minha existência, professor foi a profissão que escolhi e que me realiza como pessoa e como profissional.
Nasci em uma família muito humilde. Meus pais vieram da região da Chapada Diamantina (BA) tentar a vida no Paraná. Em Londrina se conheceram e casaram. Sou o primeiro dos sete filhos. E com eles, aprendi desde muito pequeno valorizar a educação. Morávamos no sitio. Meu pai, depois de mais um dia de trabalho, saía de casa de tardezinha para a cidade, afim de se alfabetizar no antigo Mobral. Fez até o quarto ano primário. Minha mãe nunca frequentou uma escola, mas aprendeu a ler e a escrever observando os rótulos das embalagens de mantimentos de cozinha. Minha mãe escreve e lê como poucos. Até hoje, já com seus quase oitenta anos, é comum encontrá-la de óculos e com um livro nas mãos.  O esforço dos dois pela educação foram contaminando os filhos muito cedo. Não passava pela cabeça deles que um dos filhos ficasse sem estudar. Quando recebiam uma proposta de emprego em alguma outra fazenda ou sítio, uma das primeiras condições que avaliavam era se tinha uma escola na região. A caminhada que eu fazia, de quatro quilômetros, todos os dias para ir à escola era muito pouco, diante o sacrifício que meus pais faziam para garantir as condições para a nossa educação; desde o parco material didático, as roupas e o lanchinho sagrado de cada dia. Em casa fomos educados para respeitar as outras pessoas, e especialmente nossos professores e professoras. Estes eram vistos em casa quase como uma entidade. Eram tratados como uma verdadeira autoridade na região. Na época havia até alguns exageros por parte das professoras, mas os pais entendiam que estas estavam fazendo o melhor para a educação dos seus filhos. Ainda me lembro de quando em alguma festa da igreja ou da cidade encontrávamos uma das minhas professoras primárias.  Apreensivo observava a forma carinhosa como se tratavam, e falavam do meu aproveitamento na escola. Até ficava feliz ao escutar os elogios.
Putz!  Alonguei um pouco esta história. Mas trouxe este pequeno extrato de vida para mostrar que a educação sempre foi uma coisa forte na história de vida da minha família. Outra marca importante, a religião. A fé do povo simples fazia parte da minha rotina de menino. As missas, os terços, os velórios, o dia de Nossa Senhora Aparecida, a Folia de Reis, e até visitas em benzedeiras. E as festas juninas? Até hoje, no dia 24 de junho, minha família comemora a festa de São João. No sítio onde meu falecido avô morava, todos os anos tinha fogueira, mastro, terço e festa. Algumas lembranças já se foram, mas o biscoito de polvilho, o chocolate quente e o quentão de pinga (só molhávamos o bico) estão em mim até hoje. Eram sacos de biscoitos feitos primeiro pela minha avó, depois pelas minhas tias, no fogão a lenha para servir um mundaréu de gente.
Na casa em que morávamos e na casa do meu avô era muito comum receber a visita de padres e irmãs. Sempre eram muito bem recebidos. Todo este clima de religiosidade fez com que aos 11 anos eu ingressasse no seminário para estudar para padre. Sim, não sei por que cargas d’água, desde os primeiros anos de consciência de vida eu afirmava que queria ser padre. Lógico que isso trazia um certo deleite para a família. Foram seis anos no seminário, da sexta-série até o término do antigo segundo grau. Tempo de muita disciplina nos estudos e na vida. Manhã, aulas. Um pouco de tempo para algum tipo de trabalho, e a maior parte da tarde, tempo exclusivo para estudos e tarefas escolares. As professoras e os professores eram nossa ligação com a vida externa para além dos muros do seminário. Com exceção de alguns padres que moravam no seminário, a maioria dos professores vinham de fora. Traziam para a gente o conhecimento científico, mas também o conhecimento de mundo. Eu os admirava muito. Especialmente quando transgrediam as regras e apresentavam algumas críticas sublimares à própria organização religiosa. Pô! Tinha um padre professor que levava para a sala de aula textos de Chico Buarque. Lembro de escutar às escondidas, em um pequeno escritório, a música “Geni e o Zepelim”, que na época era considerada um sacrilégio.
Sempre tive um espirito de admiração pelos meus professores. Já no primário, era visível o meu encantamento com as professoras Janete e Ana Maria. Elas me ensinaram as primeiras letras. Lembro do carinho que estas professoras tinham comigo. Mas esta admiração pelo ofício de ensinar chegou mesmo em forma de um turbilhão. A temida Salim, professora de Língua Portuguesa, me deixava paralisado quando falava dos livros de literatura brasileira. Em alguns momentos ela se transfigurava ao falar de algum personagem. Era uma verdadeira viagem. Era intensa, brava, mas ao mesmo tempo encantadora! Com ela, um dos melhores presentes que um educador poderia me dar: o gosto pela leitura. Aquele adolescente de aproximadamente 15 anos já vislumbrava em silêncio, se não vingasse o desejo de ser padre, o desejo de ser professor.
Tive naquele período excelentes professores. Uma das sensações mais indescritíveis que tive depois de formado, foi entrar em uma escola em Londrina como professor, e perceber que dois ex-professores do tempo de seminário, que tanto os admirava, eram agora meus colegas de trabalho. Boas lembranças.
Saí do seminário após o término do segundo grau/ensino médio. O motivo da minha saída é um outro capítulo, acho que sem relevância aqui.  A convite de uns amigos vim para Curitiba cursar Filosofia na PUC, pois tinha ainda a expectativa de voltar ao seminário. Aliás, estava fazendo um ano de experiência fora do seminário. Mas as circunstâncias da vida vão aprontando os caminhos da gente. Precisava trabalhar para me manter em Curitiba. E os trabalhos disponíveis eram, em sua maioria, durante o dia todo. Precisa estudar à noite. Tranquei o curso de Filosofia, e comecei a trabalhar em uma rede de livrarias. A literatura novamente em minhas mãos. Na livraria conheci leitores de todos os gostos. Li, discuti, descobri personagens, lugares e histórias que não imaginava contadas. Conheci escritores, entre estes Abdias de Nascimento e Dalton Trevisan. Este último me dava o privilégio de saborear um copinho de chá, quase todas as tardes, regado a histórias cotidianas de Curitiba e da literatura.
Com o corpo e alma tomado pela literatura não tive nenhuma dúvida. Deixei a Filosofia e me aventurei no vestibular do curso de Letras da UFPR. Ainda hoje sinto as sensações dos meus primeiros dias de aulas no curso de Letras. Estava tendo aulas com professores que estudava nos livros didáticos ou especialistas naqueles autores que eu mais admirava. Deliciei-me com os estudos de Machado de Assis, Fernando Pessoa, e para não ficar só na literatura, me embrenhei nas teorias da linguagem, nas variantes linguísticas, e especialmente nas metodologias de trabalho dos textos em sala de aula. Aos poucos, meu projeto de ser professor estava próximo de concretizar. Começou o período de estágios. Fora aulas de catequese na época do seminário, nunca tinha dado uma aula. Ansioso cheguei a um Colégio Estadual no bairro Tarumã para iniciar o estágio. Isto era quase final do ano 1990. O magistério estava em greve. Puxa! O que fazer? Meu estágio se resumiu a um denso trabalho escrito sobre o ensino do texto em sala de aula. Trabalho que me auxiliou muito na minha trajetória docente.
Para finalizar a conversa. Quando terminei o curso de Letras, apesar de ocupar uma posição de destaque como gerente de loja, despedi-me do trabalho na livraria. Voltei para o interior do Paraná. Queria conviver um pouco mais com minha família que me viu sair de casa aos onze anos. Imediatamente comecei a dar aula como substituto de uma professora. Vieram os concursos públicos em 1991, e depois 1993. Aprovado nos dois dei início a minha trajetória na educação do Paraná. Esta já é uma outra história.



 

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