Bom dia, boa tarde, boa noite. Professores e funcionários de escola estão na segunda semana de greve no estado do Paraná. Primeiros dias do inverno e cá estamos nós, "cansados, magoados e exaustos", como diria o Sebastião Rodrigues Maia, mas muito esperançosos. Seguimos em nosso esforço - quase utópico - de dar voz aos educadores e às suas biografias. Nesse sentido, o blog Educação, política e o avesso traz mais um texto emocionante. O texto a seguir é de autoria do professor Everaldo Lobo. Boa leitura e bom apetite.
Cresci no bairro da Água Verde em Curitiba. Passei boa parte da infância na Rua Petit Caneiro, atrás do Estádio Joaquim Américo, hoje Arena da Baixada. Tímido, raramente jogava bola e bets na rua. Ser um tanto gordinho atrapalhava minhas pretensões esportivas. Pelo menos eu acreditava nisso. Compensei torcendo pelo Furacão. Sinal de boa educação, suponho.
Cresci no bairro da Água Verde em Curitiba. Passei boa parte da infância na Rua Petit Caneiro, atrás do Estádio Joaquim Américo, hoje Arena da Baixada. Tímido, raramente jogava bola e bets na rua. Ser um tanto gordinho atrapalhava minhas pretensões esportivas. Pelo menos eu acreditava nisso. Compensei torcendo pelo Furacão. Sinal de boa educação, suponho.
Assim, pra preencher meu
inescapável tédio, procurava por desenhos na TV. Na extinta Rede Manchete
passavam animes sensacionais. Um neófito na arte da escrita surgia com pouco
mais de sete anos. Mesclava, nos meus desenhos, linguagem de quadrinhos com
textos de aventura, inspirado na programação matutina. Rabiscava minhas
criações nos cadernos que meu pai me dava para que eu organizasse minha vida
estudantil. Subverti sua vontade, velho Lobo. Os cadernos que seriam usados para
que eu tivesse o mínimo de método serviriam para registrar minha imaginação.
Meu pai merece uma menção
especial. Foi o primeiro a me cercar de literatura. Desta feita, funcionou,
posso dizer. Fernão Capelo Gaivota, O Pequeno Príncipe e livros de Sir Arthur
Conan Doyle e Agatha Christie iniciaram a saga literária de minha vida.
Chegara a adolescência. Com ela, a
melancolia e as angústias do rapaz tímido e com sobrepeso. Fiz parte de um
grupo de jovens e, nas reuniões e encontros pelo Paraná (Como era bom viajar),
revelou-se um talento inato para oratória. Tinha dificuldade para falar com
alguém olho no olho, mas falar com grandes plateias dava um frio na barriga e
uma sensação de realização peculiar. Me viciei nesse modus operandi e tornei-me
prolixo nas relações (Característica que perdura até a atualidade, mesmo com
mais discrição). Logo desistiria da carreira de desenhista, pois dera ouvidos a
uma crítica sobre meu traço um tanto acadêmico. Pelo menos foi esse adjetivo usado
pelo meu colega do antigo CEFET (Sim, fui aluno de eletrotécnica. Um fiasco
anunciado para alguém que tinha vocação voltada para o uso das palavras). Essa passagem merece também devida atenção,
pois foi num intervalo entre turno que eu vi uma cena de Comédia Dell´Arte
durante um ensaio do grupo de teatro amador daquela instituição. Foram poucos
segundos, mas bastaram para me dar a certeza de que queria fazer aquilo:
TEATRO.
Comecei minha carreira de ator no
teatro amador. Conheci e fui para o proscênio representando Brescht,
Shakespeare, Nelson Rodrigues, Molière, Sartre e outros mais. Naquela altura,
aos vinte e poucos anos, já não via distinção na qualidade da criação artística
entre o ato de escrever e atuar. Até para Cuba viajei para estudar roteiro
cinematográfico na Escola Internacional de Cine e TV, Havana. Participei também
de festivais pelo Sul do Brasil, e a aprovação do público era o antídoto da
carência do ator, como se sabe. Tornei-me profissional e até no cinema pude
trabalhar, desde produções mais modestas até pioneiras de Canais como a HBO (Filmaram
em Curitiba por causa dos impostos das metrópoles americanas, veja só). Mesmo
com alguns pequenos sonhos de um admirador de Robert De Niro e de
teledramaturgia acontecendo, percebia que precisava de mais técnica se desejava
saber escrever bem para teatro e TV. Ora, por que não ingressar numa
universidade de Letras para aprimoramento?
Iniciei Letras Português na
PUC-PR e, por uma série de imprevistos, acabei por transferir-me para UTP-PR,
onde também havia formação para a cadeira de língua inglesa. Como na vida o
inesperado acontece, casei-me e me tornei pai aos vinte oito anos. Tudo muito
fora dos planos, mas cheio de vida, alegria e fé.
Não é preciso entrar em detalhes
para descrever a responsabilidade em zelar e amar um filho. Percebi que o mundo
acadêmico contribuiu e muito para minhas técnicas de escrita (Anos depois,
acabei dirigindo e escrevendo peças para jovens e adolescentes). No entanto,
atuar e escrever num país que abandona seus artistas, quando se tem que cuidar
de uma família, parecia um tanto arriscado. Pensei: qual ofício seria similar a
estar num palco e compartilhar vivências e grandes histórias e ainda dar
condições de cuidar de minha família? Claro, a sala de aula seria um bom lugar
para se estar. Com meu filho recém-nascido, fui contratado por uma escola
particular para dar aulas de teatro e, creiam, cinema. Durante dois anos
ensaiávamos e escrevíamos histórias com as crianças. Ao final do processo, íamos
para uma mostra que acontecia no SESC DA ESQUINA. Era um grande prazer, nem
trabalho parecia. A alegria das crianças renovava o espírito.
Mas ainda faltava algo. A
trajetória na arte e no magistério estava voltada para um animado, generoso e
um tanto restrito público. Tapinhas nas costas de familiares e congratulações de
amigos balançavam o ego, sem dúvida. Porém, em que espaço eu poderia agir com
arte-educação para tornar realidade os ensinamentos de Augusto Boal em seus
magníficos livros O TEATRO DO OPRIMIDO e JOGOS PARA ATORES e NÃO ATORES? Estava
perdendo interesse no público burguês e em suas reproduções do senso comum
midiático. Findava orgulhoso minha contribuição junto àquelas crianças e
adolescentes. Queria, isto sim, estar mais perto dos subúrbios, onde uma
efervescência sócio cultural acontecia juntamente com a ascendência de um
governo progressista com um olhar de inclusão jamais visto na história do
Brasil. Apaixonei-me pela ideia de fazer parte disso tudo. Em Cuba pude
perceber que cultura e escola para absolutamente todos era uma utopia possível.
Algo semelhante parecia prestes a acontecer no estado do Paraná, sob a égide do
governo Roberto Requião.
Não, não fui dar aula de
teatro na Escola Pública. Ingressei pelo concurso de dois mil e três pelos chamados
dois padrões, Português e Inglês. Comecei no Colégio Estadual Professora
Edithe, onde pude estar diretor-auxiliar por duas gestões. Conseguimos até ter
um grupo de pesquisa teatral durante três anos, o RFU (Claro, demos um jeito.
As políticas de governo da época davam condições para iniciativas da
comunidade). Participamos do projeto Fera e até da programação da TV CULTURA
fizemos parte com um espetáculo nosso. Quantos educadores e educandos incríveis
passaram pela Rua Mato Grosso, Distrito Ferraria, Campo Largo. São incontáveis
os alunos que estão contribuindo para a comunidade paranaense de modo ímpar e
que passaram por nossas mãos. Engenheiros, advogados, tecnólogos, artistas e
até uma escritora estiveram em nossas turmas de ensino fundamental e médio.
Cá estou eu em dois mil e
dezenove. Perplexo, enfrento de modo inédito destruidores de sonhos,
criminalizando professores e ideais por um projeto mesquinho e desumano de
poder. Em esvaziadas salas junto com uma juventude dividida entre a opressão e
o opressor, minha voz e a dos meus companheiros insiste em ecoar pelos
corredores quase abandonados por omissão de recentes governos neoliberais e
voltados para orçamentos publicitários que distraem a grande massa e mentem
para permanecerem no poder. Sem ingenuidade barata, sabíamos que não seria
simples. Seguimos lutando. Estamos ainda fortes, afinal, Shakespeare sabia e me
contou que “Somos feito da matéria de nossos sonhos”. E você amigo? Não era
disso que era feito quando se tornou educador?
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